quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O Assassino do Estilete

Em uma escola de São Paulo, Kratos colecionava vários tipos de estiletes, parecia ser o passatempo ideal para ele. Kratos é um garoto normal, mas sofria bullyng na escola, por ser muito quieto e não tinha amigos, e às vezes conversava sozinho.
Em uma tarde na escola, três garotos pararam Kratos, deram um surra nele, o pobre garoto saiu correndo de lá com lágrimas nos olhos, mais em meio à correria, Kratos virou para trás, ele estava estranho, com um olhar medonho e uma cara que só de ver assustava qualquer um.
À noite, um dos jovens que agrediram Kratos na escola tinha saído para se encontrar com uma garota. Carla, que menina adorável, pena que tinha fama de ser a "Galinha" da escola.
Estavam lá, os dois, em uma pizzaria famosa do bairro. Marlon tinha sensações estranhas, o coração gelava, e a garota percebeu, e tentou descobrir o que houve com ele.
- Marlon o que houve?
- Não sei Carlinha, estou com um sentimento estranho em mim, sei lá. Vou ao banheiro e já volto.
- Tudo bem.
E assim partiu para o banheiro. Chegando lá, lavou o rosto e ficou se olhando no espelho, quando de repente, a luz do banheiro se apaga ele meio preocupado fica procurando o interruptor. Mais a luz volta a se acender. Segundos depois a luz se apaga novamente, mais acende rápido, o jovem vê uma imagem de um garoto todo de preto no espelho, ele se apavora, e a luz apaga novamente.
Quando acende, o garoto estava em frente dele, com um estilete na mão, o jovem tenta correr, mais escorrega e cai.
Lá de fora ouviram se gritos, todos correram para ver o que poderia estar acontecendo, quando entram, encontraram o jovem todo ensanguentado e cortado, com um bilhete em cima.
 “Jamais brinque com alguém que você não conheça".
No outro dia, na escola, teve uma homenagem ao jovem assassinado na noite passada, Kratos parecia estranho, mais nada que afetasse ninguém.
Kratos, saiu da sala e foi para a coordenação, não estava se sentindo bem, queria ir embora para a casa.
A coordenadora ligou para a mãe dele, e ela liberou.
Mais tarde ainda na escola, Carla estava andando no pátio, quando levou um arrastão, um garoto todo de preto derrubou ela.
- Menina, você sabe o que aconteceu, mais não disse nada. Parece está nervosa, peço que fique assim, não diga nada a ninguém porque eu saberei, e isso prejudicara você.
A garota não teve reação, não conseguia nem gritar. O jovem garoto de preto sumiu, e a garota voltou para sala, estava muito assustada, mais não queria contar a ninguém o que tinha acontecido, pois temia o que poderia acontecer.
Mais a professora queria saber o que tinha acontecido, então chamou o diretor da escola, para levar a garota para conversar com ele.
Chegando lá, eles conversaram.
- Carla, por favor, você não pode esconder nada de mim, eu preciso saber o que aconteceu.
- Diretor. Não posso!
- Pode sim.
- Promete não contar a ninguém.
- Prometo!
A garota respirou fundo e começou.
- Na noite de ontem eu estava com o "Marlon", estávamos na pizzaria, ele estava estranho, eu pude perceber, ele disse que ia ao banheiro, quando ouvimos gritos, fomos lá e ele estava morto, hoje, um garoto de preto me derrubou e disse que se eu contasse para alguém, ele me mataria.
- Mais contar o que?
- Que ele matou o Marlon.
- Ele estava aqui na escola
- Sim, por favor, não conte isso a ninguém, ele disse que vai me matar!
- Não se preocupe.
O Diretor muito preocupado esperou que a garota saísse de sua sala para chamar a policia.
No outro dia, a policia cercava o lugar atrás do jovem de preto.
Carla estava sozinha no banheiro, quando de repente, sentiu uma dor forte por trás de suas costas, era ele, estava armado com um estilete, quando a jovem caiu no chão ele começou a enfiar o estilete em todo o corpo dela, mais um barulho fez com que ele fugisse do local, era um policial, encontrou a jovem ensanguentada no banheiro.
- O que houve menina?
- Ele me pegou
- Onde ele está?
- Aqui dentro.
O policial começou a busca e pediu reforços, levou à garota, ela colocou a mão no bolso e encontrou um bilhete.
 “Eu disse para você não me entregar, agora sofra as consequências".
Ao ler, até os próprios policiais ficaram com medo, isso era incrível, como alguém poderia causar tanto terror assim.
Continuaram com a busca do garoto misterioso, mais para o azar deles, eles não o encontraram.
As aulas foram suspensas até que o assassino fosse encontrado, Carla tinha ficado louca, mandou ela para uma clínica, ela estava totalmente debilitada, parecia ter usado uma droga muito forte.
Ao tudo o que acontecia na escola, Kratos, parecia tranquilo, parecia que aquilo não tinha a ver com a escola em que ele estuda.
Uma semana mais tarde, as aulas voltaram, todos os alunos estavam assustados, com medo de o tal assassino voltar, todos menos o Kratos, ele parecia estar feliz.
Depois de um dia de aula normal, todos voltaram a se interagir como sempre foram, parecia que a história do assassino tinha sumido, e foi assim por um, dois, três, quatro dias...
A história do garoto estava sumindo. Sempre, que alguém se lembrava da história o medo tomava conta do lugar.
Hum ano se passou desde que o assassino do estilete havia parado de matar os alunos da escola, aquilo já estava virando história de terror apenas. Ixii, ninguém deveria ter falado isso.
O diretor da escola, estava morto no dia seguinte, estava em sua sala, trancado com cortes em todo seu corpo, que inferno! Tudo aquilo tinha voltado de novo. O que fazer? E Agora?
Todos entrarão em desespero.
- Por favor! Ajude-Nos!
Implorou uma aluna com as mãos para cima.
Nesse momento, algo aconteceu.
O misterioso garoto apareceu, estava todo com sangue, todos se afastavam do garoto, e ele mostrando seu estilete para todos.
- Vocês adoram fazer os outros sofrerem? Porque não posso fazer o mesmo com vocês.
Ele correu e enfiou o estilete no professor de matemática.
- Isso é por ter gritado comigo.
Todos correram desesperados.
- Não adianta fugir. Vou matar todos!
Nesse momento ele assassinou o secretário. A policia chegou à escola, já tinha muitas vitimas. A policia pegou o assassino. 
E para a surpresa de todos era Mário, irmão mais velho de Kratos.  Todos se espantaram. 
Que decepção!
Kratos estava quietinho ouvido tudo, todos acharam que era ele o assassino.
- Todos vão me pagar.
Todos! 
Foi o que Mário disse.
 Quando perguntaram a ele, porque fez isso, ele disse apenas:
- Eles maltratam meu irmão, porque não posso maltratar eles? 
Um silêncio de um minuto tomou conta do lugar. 
- Quando sair daqui, eu mato os que faltaram.
Disse Mário com um olhar macabro. 
A família de Kratos mudou do bairro onde morava, para assim tentar, uma vida melhor.
Mais aquelas imagens de ódio de seu irmão assassinando todos ficaram guardadas em sua memória para sempre.




Ator: Bruno Fernando Morais

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Vizinho

Era domingo à tarde, e lá estava Ned, deitado no sofá com sua preguiça habitual dos fins de semana. Ned estava de férias do trabalho, então, praticamente todo dia era dia de preguiça. Solteiro e morando sozinho, ele não ligava muito para as tarefas domésticas, e quando não estava trabalhando, só queria saber de sair com os amigos ou ficar em casa em completo ócio. Mas algo naquela tarde mudaria sua rotina preguiçosa. 
Em meio a um pacote enorme de salgadinhos e vários cliques no controle remoto a procura de um programa de TV que pudesse entretê-lo, Ned ouviu a campainha tocar. Com muito o custo o jovem rapaz levantou do sofá, e caminhando lentamente foi até a porta, visualizou a visita pelo olho mágico, e só aí atendeu. Era seu vizinho e amigo Bob. 
Bob parecia estar com muita pressa, ele pediu para que Ned lhe fizesse um grande favor. Bob pediu que Ned vigiasse sua casa enquanto ele estivesse fora, disse que tinha assuntos pessoais a tratar e ficaria ausente por uns dias. Por se tratar de um bom amigo, Ned sem pensar duas vezes e disse que faria o favor a Bob. Bob agradeceu e entregou uma cópia da chave da casa para que Ned pudesse adentrar e alimentar os cães uma vez por dia. Bob se despediu, entrou no carro e saiu em disparada com uma velocidade consideravelmente alta. Ned estranhou o comportamento de seu amigo, um rapaz que sempre estava de bom humor, agora, Bob estava tenso e com um ar de preocupação no rosto. Ned suspeitou que algo pudesse estar errado, mas não teve tempo de questionar Bob, sua visita estranha e inesperada durou pouco mais de um minuto. 
Nos dias seguintes Ned fez o que Bob pediu, entrava na residência para alimentar os cães e várias vezes ao dia, verificava a segurança da casa de Bob. Mas nesses dias, algo chamou a atenção de Ned. O clima na casa parecia estar diferente, Ned sentia um enorme desconforto toda vez que a adentrava para dar ração aos cães, algo que nunca sentiu não outras vezes que entrou lá. Não sabia o que era, mas sentia-se incomodado com algo. Mas mesmo tendo essas estranhas sensações, Ned continuou fazendo esse grande favor a Bob. 
Certa noite, antes de dormir, Ned fez como nas noites anteriores, da janela de seu quarto deu uma última olhada na casa de Bob para se certificar que estava tudo em ordem, mas dessa vez, se surpreendeu com algo. Avistou o que parecia ser uma pessoa olhando pela janela da sala. Confuso, Ned continuou olhando para aquela figura estranha que poucos segundos depois desapareceu. Ned continuou observando, mas na sua cabeça havia a dúvida se realmente viu o que pensava ter visto, afinal, não era pra ter ninguém na casa. Até que Ned se surpreendeu novamente. Agora Ned teve a certeza que não era sua imaginação, mas não era aquele vulto que ele estava vendo, e sim as luzes da casa de Bob que se acendiam e se apagavam repetidamente. Sala, cozinha, quartos, cada hora era um cômodo diferente, o que confundiu ainda mais a cabeça de Ned. Todo esse acende e apaga durou pouco tempo e logo a casa ficou as escuras novamente. Ned pegou seu telefone celular e tentou fazer uma ligação para Bob, mas o número discado aparecia como fora de área. Então Ned ligou diretamente na residencia, não sabia muito que esperar dessa ligação, mas a fez assim mesmo. O telefone da casa de Bob tocou uma, duas, três, quatro e só após o quinto toque alguém atendeu. Mas quem estava lá e atendeu ao telefone não disse nada, Ned pode ouvir só a sua respiração ofegante. Segundos depois a ligação caiu. Ned voltou a observar a casa de Bob, estava assustado, mas queria saber o que realmente estava acontecendo. Alguns minutos depois o vulto voltou a aparecer na janela da sala, mas agora sim, Ned teve a certeza que se tratava de uma pessoa, mais precisamente uma mulher. Essa estranha mulher parecia saber que Ned estava olhando para ela, pois com as mãos gesticulava e fazia movimentos como se estivesse chamando por ele. Mesmo espantado, Ned não conseguia para de olhar para aquela figura estranha, até que, ela parou de acenar, e parecendo ter uma acesso de raiva, começou a gritar e a bater as mãos violentamente contra a janela. Ned se apavorou tanto ao ver aquilo que até levou um tombo caindo de costas no chão. Ainda caído, Ned continuava a ouvir os gritos e os sons que aquela mulher provocava ao bater na janela. “Meu Deus, o que está acontecendo? “ pensava Ned. Até que pouco tempo depois os sons cessaram e a noite voltou a ficar silenciosa. Ned continuou deitado no chão, não tinha a mínima coragem de levantar e olhar em direção da casa de Bob outra vez. Mas o pior susto ainda estava por vir. Ned começou a ouvir sons na sala de sua própria casa, depois sons passos na escada que levava até o andar de cima onde ficava seu quarto, exatamente onde ele estava no momento. Apavorado, Ned se encolheu um dos cantos do quarto e ficou ouvindo os sons de passos se aproximarem cada vez mais, até que surge pela porta uma mulher, a mesma mulher que ele viu na janela da sala da casa de Bob. Ela estava nua, chorava muito e tinha muitos machucados pelo corpo que sangravam muito. Ao ver aquela mulher com aparência pavorosa se aproximar, Ned entrou em desespero e desmaiou. Quando voltou a si já era de manhã. Ainda confuso e assustado com o que presenciou na noite passada, ele levantou e foi até a janela do seu quarto, e de lá pode ver a rua repleta de pessoas e muitos carros de policia e bombeiros em frente à casa de Bob. Ned ficou ainda mais confuso. 
As noticias após todos os acontecimentos eram que a policia, através de uma denuncia de um vizinho que ouviu gritos desesperados de uma mulher, encontrou os corpos de três mulheres nos fundos da casa de Bob, ele assassinou cruelmente as três. Bob foi preso alguns dias depois em outra cidade, ele confessou os assassinatos. Ned se surpreendeu com a crueldade de Bob, pois nunca esperava isso de alguém que sempre foi um bom amigo. 


Naquele dia, após acordar do susto e ver toda aquela movimentação na rua, Ned notou algo que estava não só na parede do quarto, mas em outros cômodos da casa, em todos esses lugares estava escrito com sangue a frase “Me ajude!”. 



Autor: Felipe AG 

Fonte: A Face do Medo

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Espelho Que Roubava Almas

O que mais me lembro da minha infância era o grande espelho que havia na sala da casa da minha avó paterna. Estava sempre coberto por um grande lençol negro, o que despertava a minha curiosidade e de meus primos.

Meus avôs diziam que aquele era um espelho amaldiçoado, capaz de roubar a alma de quem olhasse o seu próprio reflexo nele. Apesar de sermos bastante jovens não acreditávamos na história. Se fosse verdadeira não seria melhor destruir o espelho?

Certa noite brincava sozinhos na sala quando meu primo Arthur, teve a ideia de tirar o pano do espelho. Eu me calei, apesar de não acreditar que ele teria essa coragem, meu primo mais novo Felipe também não disse uma palavra.

-Vocês são duas mariquinhas!

Disse ele caminhando em direção ao espelho. Aproximou-se segurou o lençol negro com as duas mãos e o puxou para baixo. Instantaneamente, levei minhas mãos aos olhos, não queria olhar.

Ouvi um baque surdo, e em seguida Felipe soltou um grito de desespero, logo toda minha família estava na sala, pelo menos eu acreditava que estavam eu continuava com os olhos tampados, só tive coragem de olhar quando ouvir minha avó dizer pode abrir os olhos o espelho está tampado.

Meu primo Arthur estava morto, seus olhos estavam revirados mostrando a parte branca, e sua língua pendia para fora da boca. Felipe estava sentado no chão em estado de choque, balançava de um lado para o outro com o dedo polegar na boca.

Fiz terapia por anos para esquecer o que havia acontecido naquele dia. O terapeuta me fez acreditar que a morte de Arthur nada teve a ver com ele tirar o lençol do espelho, aquilo tinha sido uma infeliz coincidência, ele tinha sofrido um infarto, é raro uma criança de dez anos sofrer um, mas o caso dele não foi um caso isolado.

Tive pesadelos frequentes com aquele espelho por anos, sempre me via na sala e uma curiosidade crescente me fazia tirar o lençol. A principio nada acontecia, depois via Arthur com o rosto encharcado de sangue com os olhos revirados, clamando por mim:

- Venha Primo, me sinto tão sozinho aqui, faz frio, não é um espaço tão grande, mas é o suficiente para brincarmos.

Ainda hoje embora não com a mesma frequência eu ainda sonho com ele. Meu primo Felipe estava internado em um hospital psiquiátrico há dez anos.

Na época eu acreditava que Felipe tinha olhado para o espelho, mas ele contou em um dos seus raros momentos de lucidez que viu seu reflexo apenas de soslaio. Meu psiquiatra também tinha uma resposta para isso, foi o trauma de ter presenciado a morte do irmão que o deixou assim, algumas pessoas são mais forte que outras. Disse-me ele certa vez.

Casei-me e aceitei que o que havia acontecido foi obra do acaso minha própria avó contou que tudo era uma invenção dela para nos amedrontar.

Depois da morte do meu primo só voltei na casa dela por duas ocasiões: A primeira há dois anos atrás quando meu avô faleceu, e a segunda alguns meses atrás quando minha avó faleceu.

Embora minha avó fosse uma pessoa cheia de vida depois da morte de meu avô ela já não era mais a mesma raramente nos ligava, ou visitava, foi encontrada morta em frente ao espelho com o lençol negro na mão; suas feições conforme me contaram eram as mesmas do meu primo. Pelo menos uma vez por ano ainda tenho aquele sonho...


Agora não são apenas um, são dois clamando por mim!

Autor: Fabio Oneas
Fonte: Clube do Medo

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Choro do Bebê e o Fantasma da Criança

Há vários anos atrás um casal decidiu comprar uma velha e grande casa para iniciar sua família. Com um bebê recém-nascido pensaram que o local seria ideal para criar as várias crianças que pretendiam ter.

Em uma noite a mãe ouviu o choro de seu bebê e foi até o seu quarto ver a criança, pensou que talvez ele estivesse com fome e precisasse alimenta-lo. Antes de chegar até a porta do cômodo da criança o chorou cessou. Pensou que talvez ele tivesse caído no sono e então voltou para sua cama.

Horas depois acordou novamente com o som do choro da criança. Entao a mãe dirigiu-se até o quarto do bebê e quando abriu a porta ficou chocada com o que viu: uma criança de um sete ou oito anos estava de pé ao lado do berço. Parecia que ele estava acariciando a cabeça de seu filho como se tentasse o acalmar.

A criança então virou a cabeça e olhou para a mulher que estava na porta. Um calafrio percorreu o corpo da mãe que sentiu seus sentidos oscilarem e pensou que iria desmaiar. Por breves segundos retomou a consciência e ao olhar novamente para o local onde estava o berço viu que a criança havia sumido e apenas seu filho mexia os braços e pernas mostrando que ainda estava acordado.

A mulher avisou seu marido e vasculharam a casa inteira em busca da criança, mas nada conseguiram encontrar. Ao comentar o ocorrido com um dos vizinhos ficaram sabendo que a casa que eles haviam encontrado tinha a fama de ser assombrada pelo fantasma de um menino que morreu na casa e o quarto do bebê era o mesmo que ele ocupava em vida...




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A CURVA DO LAGO

O opala diplomata 87 estava sintonizado na rádio 96,6 FM. A rádio mais ouvida de Salém, inclusive pelos caminhoneiros que cruzavam as estradas que cortavam os limites da cidade. O relógio digital do motorista marcava 23:50. O locutor falava sobre lendas urbanas. Fazia um alerta para os caminhoneiros tomarem cuidado coma mulher de branco que sempre pedia carona. O sorriso de incredulidade do motorista não era afetado pela crendice popular.

Permaneceu acelerando suavemente seu opala diplomata marrom. Um belo carro. Uma joia rara. O interior em couro preto dava um toque especial para o belo carro. O motorista baixou os olhos em direção ao seu rádio a fim de mudar de estação. Não demorou nem dez segundos e encontrou outra estação, menos melancólica. Quando levantou os olhos novamente para fixar a estrada freou bruscamente o carro, quase atropelou a jovem que estava com um pé no asfalto e outro no acostamento da pista.

A moça parecia possuir uma beleza que não era deste mundo, não precisava cantar para enfeitiçar, como faziam as sereias. Seu olhar melancólico e distante era suficiente. Seu braço direito pedia carona. O motorista sorriu ao se lembrar do aviso dado pelo locutor, pensou que aquilo fosse algum trote. Não um trote perfeito, pois a moça trajava um vestido vermelho. Não vestia branco.

Os cabelos loiros e a pele alva chegaram mais perto do carro quando o motorista buzinou para ela. o entrar no carro um perfume de jasmim tomou conta do velho opala diplomata 87. Ela agradeceu a carona com voz suave e doce. O motorista pisou novamente no pedal direito e prosseguiu. Ela sorria sempre.

– Estava em uma festa, mas uns palhaços me deixaram aqui sozinha. Acredita? – Falava docemente para o motorista.

– Não acreditaria se fosse outra pessoa me contando. – Brincou. – Mora muito longe?

– Não, há algumas curvas daqui. – Ela olhava fixamente para a estrada. – Há algumas curvas.

O silêncio pairou sobre eles por alguns momentos. O vento frio invadia o carro. Eriçava o pelo da nuca de ambos.

– E você? Mora por aqui? – A jovem quebrou o silêncio, ainda focada na estrada. E nas curvas.

– Não e sim. – O motorista viu que ela não entendeu, apesar de nada ter perguntado. – Moro nas estradas, desde que me conheço. – Sorriu alegremente tentando contagiar a moça que estava absorta em mundo no qual ele não tinha acesso.

– Acredita na história da mulher de branco? – Perguntou para o motorista, uma pergunta crua, fria e cortante. – Acredita mesmo que ela está por aí? Em uma dessas curvas? – O motorista sentiu um calafrio e respondeu meneando a cabeça negativamente.

O silêncio outra vez. Um Corvo bateu no vidro da frente do carro. O barulho causou um susto na moça. Ela sinalizou que sua casa ficava a alguns metros depois da “curva do lago” que avistavam agora.


– Eu moro… – Ela perdeu a voz. Perdeu o sangue que corria nas veias. Tudo parou naqueles curtos segundos. O motorista não estava ali. Não mais. Olhou de volta para estrada e ali estava ele. Em pé…apontando para o lago que ficava em um precipício o lado da curva. A jovem do vestido vermelho não teve tempo de segurar o volante ou pisar no freio. Nem conseguiria. Carro e motorista eram um só. Ambos foram vítimas do destino. E da inveja e vingança. Anos atrás, o ex-namorado da esposa do motorista o jogou para fora da pista enquanto dirigia um caminhão. O jogou junto com sua filha para fora da curva. O carro se perdeu no abismo. Apenas o corpo dele foi achado. O carro e a filha não. Desde então, o motorista e seu opala diplomata 87 surgia na noite e desaparecia mais uma vez na “curva do lago”. Levava alguém para que sua filha não ficasse só. Ou para que a encontrasse. Mas era um mergulho sem volta. Um mergulho na morte. Uma morte silenciosa, sem pistas, uma morte não noticiada nos jornais. Apenas uma morte. Traiçoeira.

Ator:  Gui Rhabelo.
Fonte: Contos de Terror