Um.
Quinze para meia-noite. Cintia andava
apressada pelas ruas; se não andasse logo, perderia o último metrô.
Entrou na estação às pressas, e logo
se dirigiu à plataforma. Estranhou que a plataforma estivesse vazia.
Três minutos, cinco, dez. O trem não
chegava.
Seria possível ter entrado na estação
já fechada? Não. Absolutamente não.
A estação nunca fechava antes da
meia-noite. Ainda assim, se estivesse fechada, ela não conseguiria ter entrado.
Certamente encontraria fechado o acesso à estação.
Cintia afastou tais pensamentos quando
um trem apareceu na estação.
Um trem vazio.
Um trem só para mim, pensou Cintia.
Estranhíssimo.
Pelo menos o trem estava iluminado.
Parcialmente iluminado, na verdade.
Verdade mesmo era que Cintia estava
sozinha num trem mal iluminado.
Uma dúvida passou por sua mente: Teria
visto o condutor do trem?
Ora, ora, mas que dúvida era aquela? É
claro que havia um condutor; afinal, o trem não viajaria sem condutor. Ou
viajaria?
Cintia começou a sentir medo.
O trem chegou à próxima estação –
também vazia -, mas não parou; continuou trilhando em baixa velocidade.
As coisas realmente estavam ficando
sinistras.
Por um instante Cintia pensou ter
visto alguém (ou alguma coisa) no fundo do vagão. Será que não estava sozinha?
Cintia estava confusa. Fora uma visão
muito rápida, que em instantes desapareceu.
Deixe de ser boba, pensou Cintia. Você
não viu ninguém. Apenas sua imaginação lhe pregando uma peça.
Então as luzes se apagaram
completamente e Cintia se viu envolvida pela escuridão.
Trevas.
Sozinha nas trevas.
Talvez nem tão sozinha assim ...
Sentiu seu tornozelo ser tocado.
Algum ser rastejante estaria vindo ao
seu encontro?
Em pânico, Cintia tentou gritar, mas
não houve tempo.
Antes que o grito saísse, Cintia
perdeu os sentidos.
Dois.
Ao acordar, desorientada e no escuro,
sentiu que perderia novamente os sentidos.
Mas, aos poucos, foi se recuperando e
conseguiu se levantar.
Tateando, procurou um assento e se
sentou.
Medo. Muito medo.
Procurou, em vão, saber as horas.
Impossível enxergar as horas em seu relógio. A escuridão continuava total.
De repente o trem parou e Cintia ouviu
o som de portas abrindo.
Sairia daquele trem imediatamente. Mas
pra onde? Sequer sabia em qual estação estava, se é que estava ainda em alguma
estação.
Ainda assim, não estava disposta a
continuar naquele trem escuro, que poderia ter as portas fechadas a qualquer
momento.
Com dificuldade, saiu do vagão
caminhando lentamente. Parecia estar em uma plataforma. Seria mesmo? Maldita
escuridão. Por onde caminhava e onde chegaria?
Logo percebeu que não seria bom
continuar caminhando.
Cintia estava completamente perdida,
desnorteada, com medo e....no escuro.
Em algum momento a luz haveria de
aparecer, claro. Só mais um pouquinho e a luz chegaria.
Será?
Cintia se sentou e começou a chorar.
Algum tempo depois, ainda no escuro,
Cintia se deitou no chão frio de cimento e adormeceu.
Três.
Ao acordar, Cintia viu que, enfim, já
era dia claro.
Nem assim, contudo, Cintia se sentiu
mais à vontade. Continuava sozinha. Continuava perdida.
Cintia não sabia o quanto tinha andado
na escuridão até se sentar e, momentos depois, dormir; mas agora, já claro,
percebeu que não estava mais em uma plataforma.
Estava em uma rua deserta.
Cintia pensou, com certo desespero: o
trem me trouxe para uma rua deserta. Mas por que? Teria um encontro
surpresa com alguém?
Pensou em gritar por ajuda, mas logo
desistiu da ideia. Podia ser perigoso; podia atrair alguém (ou algo)
indesejado.
O jeito era caminhar. Mas pra onde?
Resolveu ir até o final da rua.
Chegando lá, pensaria no que faria a seguir.
Mas não havia nada no fim da rua. Era
uma rua sem saída.
Caminhou até a outra extremidade da
rua. Também sem saída.
Cintia percebeu que estava perdida
(presa?) em uma rua absolutamente deserta, que não tinha saída para lado
nenhum.
Como tinha chegado até lá, não sabia.
E o pior: Não sabia como sair daquele
lugar.
A rua estava deserta, mas talvez
haveria pessoas dentro das casas. O único jeito era verificar e pedir ajuda.
A contra gosto, bateu palmas na casa
que estava a sua frente. Uma casa velha, igual a todas as outras da rua.
Ninguém atendeu. Silêncio.
Bateu palmas em várias outras casas.
Nada.
Sentou no meio fio, baixou a cabeça e
fechou os olhos. Sentiu as lágrimas se formarem novamente.
Ficou de olhos fechados um longo tempo
e quando os abriu....escuridão.
Teria ficado cega? Seria possível ter
escurecido tão rápido?
Estaria novamente na plataforma?
Tudo acontecendo tão rápido e tão sem
sentido.
Cintia ouviu o barulho de passos vindo
em sua direção. Dessa vez não iria desmaiar. Iria gritar com toda a força de
seus pulmões.
Só que, antes que pudesse gritar, a
luz voltou e o que Cintia viu ao seu redor fez com que seu coração parasse de
bater.
Seu corpo foi arrastado sabe-se lá pra
onde...sabe-se lá por quem.
Cintia jamais foi encontrada.