A casa era velha. Muito velha!
Não era uma casa grande e, olhando bem, nem tão pequena assim que se desse
motivo à discussão. As poucas telhas intactas formavam um arremedo de telhado
desconjuntado, pífio, que a desonrava. As janelas há muito que não ostentavam
os vidros reluzentes, quebrados as pedradas pelos vândalos. As paredes de
madeira, pretas, carcomidas pelos cupins, mostravam a sua idade, o seu abandono
e, o que impressionava mais as raras pessoas que deitavam-lhe os olhos: a
solidão! De fato, fora construída no meio do nada! O quintal e o jardim,
tomados pelo capim alto, por pouco não se confundiam com a própria mata fechada
que a circundava. A estradinha de chão batido que dava acesso à antiga
construção perdera-se no tempo. Diziam-se,
os que costumavam circular por aquelas bandas à procura de caça ou os rumores
cultivados pelo pequeno povoado próximo da floresta, que a vivenda
encarquilhada era mal assombrada: a alma de uma mulher encontrava-se presa à
velha casa numa relação de simbiose indissolúvel! Não raras foram as ocasiões
em que os relatos apaixonados dos forasteiros desavisados ou moradores
incrédulos da vila davam conta de que “a morta” ficava na janela a seduzi-los
com canções e oferecimentos sexuais dos mais variados. Folclore ou não, o fato
era que ninguém, principalmente os habitantes das circunvizinhanças, se
animavam de coragem para entrar à noite na floresta da casa mal assombrada!
Alice, de súbito, abriu os olhos
assustada, atenta, mas enxergou pouca coisa. A visão turva era-lhe de pouca
serventia. Instintivamente levou a mão à testa onde considerou como certa a
origem da dor de cabeça que lhe atingiu forte. Sentiu entre os dedos um líquido
viscoso e, sem atinar ainda muito bem o que havia acontecido, soube na mesma
hora que se tratava de sangue! A mão na testa desceu para as pálpebras.
Esfregou-as devagar. A visão voltou-lhe plena. Correu os olhos para todos os
lados querendo saber onde estava e descobriu, apesar do ambiente envolto na
mais completa escuridão, que estava dentro do jipe, o carro de seu namorado!
Então... ela lembrou!
— Aquele maldito tronco de árvore no meio da
estrada! – Resmungou entre dentes. O
jipe, conduzido pelo namorado, desgovernou-se da estradinha de chão batido e
acabou descendo um declive acentuado, curto, que logo se transformou numa
ribanceira que os freios em vão tentaram vencer sem sucesso. Os gritos de
desespero dela e de Eliseu, chacoalhados violentamente pelos solavancos da
descida forçada, foi a última cena que conseguiu lembrar-se antes de mergulhar
no escuro inescapável do inconsciente.
Alice esforçou o braço até o painel acionando o interruptor da luz
interna do carro. Antes de fazer qualquer movimento para experimentar a própria
condição física, sem estalar algum osso ou músculo do corpo, ela destravou o
cinto de segurança. Ignorou momentaneamente a escuridão opressora que cercava o
jipe e dedicou sua atenção ao companheiro. Eliseu estava desacordado! O coração
de Alice pareceu se comprimir de súbito em considerar a hipótese de seu amado
estar morto! Havia um forte hematoma no olho esquerdo, leves escoriações nos
braços, pequenos cortes e arranhões na face direita, provocados pelos
minúsculos vidros estilhaçados do para-brisa.
— Oh, meu Deus! Por favor... Não! – Lamentou numa voz contida
impregnada de pura preocupação enquanto, esquecida das dores do corpo,
inclinou-se de lado levando a mão ao pescoço dele para sentir-lhe a carótida.
Ficou em dúvida!
Encostou o ouvido no lado esquerdo do tórax. Sorriu
satisfeita. Ele estava vivo!
Alice não precisou de muito tempo para
concluir que Eliseu necessitava de cuidados médicos urgentes. Tratou de sair à
cata do telefone celular dele ou dela naquela confusão de objetos espalhados
aleatoriamente durante a descida acidentada, o que não eram poucos: comida
enlatada, cobertores, travesseiros, materiais de pesca e outras coisas de uso
necessário no “camping” para onde estava indo não muito longe Dalí. “Cadê o
maldito celular?” Não achou o seu e muito menos achou o do namorado.
— E agora? – Reclamou para si
mesmo recostando-se no assento do carro com raiva. Sem mais o que pensar ficou
olhando para frente sem perspectiva.
Daí... Alice viu a casa! Viu assim, meio que escondida, meio que
distante, entre as árvores! Comprimiu os olhos, como se isso ajudasse a focar
melhor o objeto de seu interesse na escuridão da noite. Apesar das janelas
escancaradas ao mundo, sem vidros, Alice percebeu uma luz fraca, bruxuleante,
provavelmente oriunda de velas ou algum tipo de lamparina a óleo. Havia alguém
na velha morada! Nem tudo estava perdido, afinal de contas!
— Ah... eu preciso ir lá... – disse firme enquanto
olhava o namorado desacordado. Pegou uma lanterna de sua mochila. Inclinou-se
novamente sobre Eliseu dando-lhe um sonoro beijo no rosto. – Fique com Deus! Já
volto com ajuda, meu amor! Abriu a
portinhola do jipe saindo para enfrentar a floresta, decidida, não sem antes
estar de posse de um facão escondido embaixo do banco do motorista: ferramenta
apropriada para abrir caminho em mata fechada.
E lá se foi ela, em noite avançada, à procura de ajuda!
À medida que ganhava terreno, cortando capim,
galhos e outros impedimentos naturais a golpe de facão, Alice ao mesmo tempo
não tirava da mira a velha morada que ia se revelando aos poucos. A
luminosidade da lua por aqueles lados fluía sem obstáculos. O facho de luz da
potente lanterna movimentava-se o tempo todo na busca de detalhes. Quanto mais
a depauperada residência crescia aos seus sentidos tanto mais a mesma parecia
ganhar contornos suspeitos e ameaçadores, como se a parte frontal da casa fosse
um rosto deformado, carrancudo, onde um olho, a janela escura, parecia vazado e
o outro, a janela do quarto iluminado, tencionava sondar-lhe o corpo devassando
à sua intimidade: investigava-lhe a alma!
Parou horrorizada! As pernas recusaram-se a lhe obedecer!
Decidiu retornar para o Jipe de imediato! Deu meia
volta e quando ia iniciar a caminhada de retorno ela ouviu uma voz: — Moça, espere um pouco!
Alice gritou assustada apontando o
facho de luz para o lugar de onde vinha a voz. Armou o facão decidido a decepar
a cabeça de alguém que se atrevesse a encostar-lhe os dedos. Preparou-se para
enfrentar um maníaco sexual ou um “serial killer”, no entanto viu-se de frente
com um velhinho, de compleição frágil, de mãos levantadas para se proteger do
golpe mortal. — Calma moça! Não tenha medo.
Não pretendo lhe fazer mal algum! Alice olhou aquele senhor de cabelos
brancos, magro, de pequena estatura que piscava o tempo todo para se desviar da
luz da lanterna. Antes de lhe questionar qualquer coisa, ela voltou-se
desconfiada para a casa que, de repente, perdera os contornos malévolos que a
assustara segundos antes. — Quem é o
senhor? – Ela perguntou baixando as armas.
— Meu nome é Otávio, moça. Estou de passagem para avaliar em que
condições se encontram a velha casa de campo de meus pais! – Ele disse em voz
mansa, calma e segura. – O que uma moça bonita como você está fazendo aqui,
vagueando sem rumo no meio da mata, à noite, hein?
Alice não perdeu tempo em
apresentações: contou, sem preâmbulos, a situação do acidente com o namorado
que estava desacordado no veiculo acidentado. O velho, à medida que ia
recebendo as informações, fazia caras e bocas de preocupação.
— Minha jovem, faça o seguinte: Vá até à casa e peça
o telefone celular para Eleonora, minha esposa. Eu vou dar uma olhada no rapaz.
Sou médico já aposentado, mas ainda não perdi o jeito, não.
— Mas... —
Vá! Vá, não discuta moça. O seu namorado precisa de cuidados médicos. Use o celular
de Eleonora. Convença os bombeiros de enviar uma ambulância o mais rápido
possível. — É que... – Alice tentou
argumentar sobre a má impressão que tivera da casa, mas Otávio não lhe deu
tempo passando por ela e indo em direção do lugar onde estava o jipe. Que
velhinho esquisito!
Alice acompanhou com o olhar o homenzinho simpático infiltrando-se no
meio da noite em direção ao local do acidente. Sorriu para si mesmo porque ele
lhe fez lembrar o velhinho atrapalhado de um filme antigo que assistira quando
criança: “A dança dos vampiros”. Poucos minutos depois, a jovem desvencilhou-se
da floresta fechada chegando nos limites da enorme clareira de capim alto que,
iluminada pela lua cheia, cercava a residência maltratada pelo tempo. Antes de
investir toda a atenção à casa, Alice percebeu uma senhora já de idade
avançada, andando de um lado para outro perto de um “Ford” novo estacionado a
cinco metros do alpendre. Devia ser a esposa do senhor Otávio.
— Dona Eleonora? – chamou em tom de voz alto
enquanto levantava a mão para atrair à atenção dela . A velha senhora parou no
mesmo instante, sem assustar-se, segura de si e olhou na direção de onde vinha
o chamado. Enquanto caminhava para
encontrar-se com Dona Eleonora, a jovem permaneceu desconfiada, atenta à casa,
esperando que a qualquer instante a mesma se revelasse.
Então, naquele exato momento, inesperadamente ocorreu o
primeiro dos muitos fenômenos sinistros que tornariam aquela noite como a pior
de todas as noites na vida de Alice. Ela viu, ou julgou ter visto, por um lapso
de tempo curtíssimo, não mais do que cinco segundos, uma mulher vestida de
branco gesticulando excessivamente no parapeito da janela. A cena lhe pareceu
irreal porque a desconhecida desferia golpes violentos de mãos fechadas contra
o vazio da janela, como se ela tivesse a intenção de quebrar o vidro da mesma
que há muito fora depredado! Aparentava ser uma mulher bonita, de longos
cabelos pretos cacheados, rosto fino, delicado, aristocrático! A beleza daquele
rosto só não se apresentou em toda a sua plenitude porque a fisionomia hirta
expressava revolta e desespero. A boca se abriu exageradamente como se gritasse
sem que som houvesse. Os olhos arregalados manifestaram horror, revelaram medo!
Talvez até estivesse vendo “coisas”, no entanto Alice considerou que todos
aqueles gestos espalhafatosos eram direcionados a ela com o claro propósito de
adverti-la: “vá embora enquanto é tempo”!
E achou por bem acatar o “aviso”.
Ela já ia tomar o rumo de volta à mata fechada quando o vulto de Dona
Eleonora apresentou-se-lhe firme solícita e preocupada.
— Moça, o que foi? O que está
acontecendo? Você está tão pálida!
— Humm... Não sei bem o que dizer
senhora. Parece que eu vi... Sei lá... Uma mulher pedindo ajuda dentro da casa,
sabe? — Impossível moça! Não há
ninguém lá. Tenho certeza! Eu e meu marido estávamos fazendo um levantamento
dos objetos e não vimos ninguém! – disse a mulher idosa intrigada com a
estranha que havia lhe chamado pelo nome.
Alice bem que tentou, mas não conseguiu
afastar os olhos da janela como se esperasse que a mulher misteriosa fosse
aparecer novamente. Estava chocada com o que vira. A cena realmente impressionou-lhe
muito a tal ponto de ignorar a presença de Dona Eleonora que gentilmente,
diante das circunstâncias, ofereceu-lhe o braço em apoio.
— Vamos, querida, não tenha medo! Você deve estar
impressionada com as histórias que as pessoas contam sobre a mulher fantasma
que vive nesta casa, mas tudo não passa de folclore, sabe?
— Que história? – Alice perguntou deixando-se levar
relutantemente, ainda sem retirar os olhos da janela.
— Bem... Hum... Dizem que antes de meu sogro comprar esta
casa, ela pertenceu a Elias Mendonça, fazendeiro muito poderoso desta região.
Foi ele que a construiu, afastada da vila com a intenção de desfrutar
discretamente um romance fora do casamento. Ele vinha ver a amante quase todos
os dias. Estava apaixonado, mas não poderia abandonar a esposa pelas convenções
sociais rígidas da época. Um dia a tal amante adoeceu e os médicos a
desenganaram. Dizem que Elias Mendonça a amava tanto que resolveu fazer um
pacto com o diabo preservando-a de algum modo. A alma foi extraída do corpo que
a doença deteriorava e presa dentro das paredes da casa para que o coronel
pudesse conversar com ela todas as noites! Como vê... É apenas folclore!
— Nossa senhora! Que
coisa mais mórbida! – Alice disse enquanto a proximidade da casa ia-lhe minando
a vigor das passadas até que parou vinte ou trinta metros distantes da velha
morada, decidida a não seguir em frente.
— Qual é o seu nome, querida? E como sabe o meu? – perguntou Eleonora
postando-se diante da jovem assustada.
— Oh, me desculpe à falta de educação! Esta noite não está sendo muito
fácil pra mim, sabe! Meu nome é Alice.
— O que você está fazendo por aqui a esta hora da noite, querida? Você
está machucada! Olhe só a sua testa!
Alice ainda encontrava-se hipnotizada pela aparição misteriosa da janela.
Não respondeu à velha senhora de imediato. A casa tinha de admitir, exercia um
fascínio impressionante sobre ela. Quando finalmente teve certeza que a mulher
de cabelos cacheados não iria mais aparecer, ela procurou dar atenção à esposa
de Otavio. No entanto os acontecimentos daquela noite entrelaçavam-se de modo
bastante suspeito. De começo, o rosto da velha lhe intrigou um pouco, porém,
mesmo considerando a parca iluminação natural da lua, a sensação de conhecê-la
de algum lugar começou a tomar forma em sua mente. De repente, de estalo, ela
tomou outro susto: Dona Eleonora era
incrivelmente parecida com a mulher da janela!
Poder-se-ia afirmar que se tratava da mãe dela tal eram as
semelhanças físicas entre as duas, mas não! Alice, naquele momento, mesmo não
sabendo como explicar a si própria, intuição talvez, teve a absoluta certeza de
que aquela senhora à sua frente e a suposta alma da mulher confinada à casa
eram a mesma pessoa!
Ela estava diante de uma mulher
morta!
Autor: Afonso Luiz Pereira